sábado, 8 de janeiro de 2011

Amy Winehouse, de mentira e de verdade


Por ANDRÉ FORASTIERI

Amy Winehouse é uma ruína drogada, bêbada, tatuada, desdentada, esquálida, indulgente, coberta de trapos, e seu grande talento é reempacotar para os recém-chegados a música negra que fazia sucesso antes de ela nascer. Cada geração tem o Keith Richards que merece - ou, dependendo da sobrevida, seu Sid Vicious.

Como Sir Keith, Amy não é só o lixo humano que aparenta. Molambo, sim, mas com instintos comerciais sempre em dia, operacional o suficiente para manter o faturamento - essa semana, no Brasil. Doidinha, mas tem alguns milhões no banco, e quem cuida da grana são seus pais.

Winehouse, claro, não faria 10% do sucesso se fosse uma alegre loirinha, ou uma solene crioula. A graça é que ela é punk, uma sex pistol de saias, tropicando nas canelas, fumando crack, socando fãs, espargindo perdigotos na plateia. Já a viu completamente fora de órbita brincando com camundongos recém-nascidos? Não perca. Foi para isso que inventaram a internet.

É de mentira? É de mentira tanto quanto Keith ou Sid. Amy Winehouse entrou no mundo da música pelas mãos de Simon Fuller, empresário de uma longa lista de artistas pré-fabricados e criador da megafranquia “show de calouros” Idol, que rendeu American Idol e aqui, Ídolos. Seu primeiro disco foi produzido por Salaam Remi, produtor de mão cheia e com longo currículo, com acento reggae. No segundo disco, Remi ganhou a companhia de Mark Ronson, um dos produtores mais elegantes e talentosos da não tão nova geração. Bem, Sid tinha Malcolm McLaren, e Keith tinha, de cara, Mick Jagger.

Amy é uma garota judia de Londres, filha de motorista de táxi, que fazia escola de artes desde a pré-adolescência. É “rebelde”. Foi expulsa de uma escola por fazer um piercing aos 14 anos, namorava vagabundos etc. Como tantas mocinhas que se sentem incompreendidas (e como tantas mocinhas que, além disso, são feias), Amy se apaixonou pela mitologia das mulheres sofridas, que têm uma porcaria de vida porque sofrem de amor. Seus ídolos são mulheres independentes dependentes, mal-tratadas por seus machos, que chafurdam na cachaça e companhia e conseguem transmitir as feridas para as cordas vocais. O sonho é ser neta de Billie Holiday, sobrinha de Nina Simone, filhota de Janis Joplin.

Na prática, sua música estacionou entre os 60 (as garotas perigosas da gravadora Motown e similares - Ronnie Spector, Martha Reeves, Shangri-las - e as minidivas britânicas - Petula Clark!) e, preste atenção, o jazz-soul yuppie-chic de Sade.

Drogados precisam de grana fácil. Amy já estava empepinada com drogas antes do sucesso, entre o primeiro disco, Frank, aplaudido pela crítica e mais ninguém, e o fenômeno Back to Black. O som mudou no meio do caminho e o visual junto. Perdeu quilos, ganhou o coque gigante e “atitude”. Abandonou a simpatia e o sorriso fácil. Virou “bad girl” e ícone fashion, celebrada por Karl Lagerfeld. Conquistou moderninhos e caretaços. Consenso paga bem.

É punk de butique? É crooner de boate? Uma amiga que é fã de Amy me garantiu ontem que as letras são boas - não duvido e não confiro - e que espera que Amy esteja caindo pelas tabelas no show. “As letras são sobre coisas comuns. Ela não finge. Ela é aquilo ali mesmo. E tem que continuar tomando todas, porque isso é o que ela é. Quem quer ver ela toda caretinha e comportada?” Eu não. Se morrer logo, morreu, vira lenda, Sid Vicious. Se sobreviver mais uns trinta anos, duvidoso, pode emplacar como herdeira de Keith Richards, o bandalho profissional. Só a regeneração seria imperdoável.

Amy Winehouse é de mentira e de verdade, porque soa verdade. Nós nos tornamos o que somos...

LINK:
http://noticias.r7.com/blogs/andre-forastieri/

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Vida: a biografia de Keith Richards


Por CRISTIANO VITECK

Como se estivesse em uma longa, mas agradável e divertida conversa de boteco com um dos maiores rock stars de todos os tempos. É assim que a gente se sente lendo “Vida” – a autobiografia de Keith Richards, o famoso guitarrista dos Rolling Stones. Lançada no finalzinho de 2010 no Brasil, o livro (com mais de 600 páginas) já é um dos atuais campeões de venda. E não é para menos, afinal, o músico é uma das personalidades mais icônicas do mundo artístico do século XX. Bom, nem sei porque eu estou apresentando o cara... Afinal, estamos falando de Keith Richards!

Beirando os 70 anos, mas com um corpinho de 130, Keith Richards é um sobrevivente do rock and roll. De garoto pobre que odiava a escola, encontrou na música a sua razão de viver. Da linhagem dos blueseiros iniciada por Robert Johnson na década de 1920, o guitarrista dos Stones absorveu e aprimorou ao longo de sua carreira uma gama enorme de estilos que vão do country ao rock and roll da década de 50, passando pelo reggae e até mesmo pela disco music. Toda essa trajetória de sua formação músical é claro que é contada em “Vida”, que o guitarrista escreveu em parceria com o jornalista James Fox.

Mas, o que a gente quer saber mesmo é das festas, das prisões, dos vícios, das brigas com o parceiro Mick Jagger e dos fatos que estiveram atrás das gravações dos discos clássicos dos Rolling Stones. A gente quer saber é como Keith Richards trasformou a sua vida num inferno na década de 70 e conseguiu se safar, ao contrário de muitos dos amigos deles que ficaram no meio do caminho ao se aventurarem na brincadeira perigosa que é viver intensamente o espírito sexo, drogas e rock and roll. E Keith Richards não esconde nada, no máximo, dá a sua versão dos fatos...

Com a autoridade que a sua carreira lhe confere, no livro Keith Richards dá algumas dicas que podem ser bem úteis, tanto para uma dona de casa como para quem sonha em se tornar uma estrela de rock. Para estes, o guitarrista afirma que em primeiro lugar é preciso se dedicar muito, buscar aprender sempre as infinitas possibilidades de um instrumento, tocar sempre por prazer em primeiro lugar e, se tiver um pouco de talento e muita, mas muita sorte, quem sabe um dia pode virar uma estrela.

Para quem quer ser malaco ou bandido, o recado é o seguinte: um revólver você usa quando realmente está falando sério. Já uma faca você deve usar apenas para distrair seu oponente, que vai estar preocupado com a lâmina enquanto você está chutando as bolas dele.

Quer ser um drogado? Bom, o melhor é: não entre nessa achando que poderá sair quando quiser. Mas, se mesmo assim insistir, nunca compre drogas das ruas. Vá atrás das melhores. É devido ao fato de ter os melhores fornecedores que Keith Richards credita o fato de ainda estar vivo. As drogas mais poderosas? Heroína e crack. Melhor não brincar com elas...

Foi preso? Para se safar você precisa de duas coisas: seja amigo de pessoas importantes e influentes e, principalmente, tenha muita grana. Foi assim que ele acabou escampando da cadeia tantas vezes...

Tá a fim de matar a fome? Keith Richards dá a receita do seu prato favorito. Purê de batatas com linguiça frita. O segredo é iniciar a fritura da linguiça com a frigideira fria! E mais, do manual de sobrevivência de Keith Richards ainda vem essa outra dica. Para manter a forma, coma sempre que tiver fome. Não caia nessa de se alimentar apenas três vezes ao dia. O ideal é fazer pequenas refeições durante o dia, o que facilita a digestão e ainda ajuda manter a forma!

Está vendo, “Vida” é um livro pra todo mundo. Cabe a cada um tirar suas lições dos ensinamentos de Keith Richards. Ah, é claro que ele ainda fala de dois assuntos polêmicos. Um deles é a lenda de que certa vez ele trocou todo o sangue do seu corpo todo envenenado por drogas por sangue novinho em folha. Outro é o oba-oba que saiu na imprensa há quatro ou cinco anos, quando o guitarrista disse que cheirou as cinzas do próprio pai. Mas isso eu não revelo. Quer saber? Leia o livro.

E já que estamos falando dos Rolling Stones, vale a pena conferir o documentário “Stones In Exile”, lançado também em 2010 e que conta a história da gravação do álbum “Exile in the Main Street”: o melhor álbum do grupo, gravado de forma caótica na mansão de Keith Richards na França em 1972. Um vídeo não apenas recomendável, mas obrigatório!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Três razões para ir ao U2 (e três para fugir)


Por SYLVIA COLOMBO

Na última vez em que a banda irlandesa esteve por aqui, em 2006, me meti numa "polêmica" com o então editor da Ilustrada, meu amigo Marcos Augusto Gonçalves. Ele escreveu que Bono, com suas mensagens pacifistas, não passava de um "chato". Eu respondi afirmando que não se devia simplificar as coisas assim e deixar o valor artístico e histórico do U2 em um segundo plano. Continuo pensando da mesma forma, apesar de concordar em parte com Mag --Bono realmente erra na dose quando se trata de política, e já foi admoestado inclusive pelo baterista, Larry Mullen Jr (formador e "dono" do grupo), por ter apertado as mãos de Tony Blair em tempos de Guerra do Iraque.

Mas eis que a banda se prepara para novamente visitar o Brasil. Desta vez, a terceira, fará três shows para cerca de 150 mil pessoas, em abril, no Morumbi. Apesar de já tê-los visto ao vivo três vezes (duas aqui, outra no exterior), ainda acho que vale a pena repetir a experiência e resolvi listar alguns motivos para isso. E também apresentar um "por que fugir". Afinal, assistir a concertos de rock em estádio em São Paulo nos últimos tempos virou nada menos que um pesadelo.

1. Cada show do U2 é um espetáculo diferente.

"Under a Blood Red Sky", o show da turnê do disco "War" (1983), é um bom modo de entender como e onde tudo começou. O U2 era então uma entre outras bandas do pós-punk, e começava a namorar com a ideia de grandiosidade. Bono desfilou com uma bandeira branca, entoou "Sunday Bloody Sunday" em sua versão mais famosa, nas Red Rocks, no Colorado (EUA). A partir daí, cada turnê teria uma marca muito própria na trajetória dessa banda que nasceu há quase 35 anos.

Um bom exemplo disso é a tour de "Achtung Baby", que marcou a virada para o pop e a aproximação com o eletrônico. Chamada de "Zoo TV", entre 1992 e 1993, trazia Bono em sua viagem futurista celebrizando excelentes versões de "Until the End of the World" e "Stay (Faraway, so Close!)".

Outro veio em 1997, com a "turnê do limão", a Pop Mart Tour (que passou por aqui), em que o grupo subiu ao palco fantasiado e fazendo um som dançante, não podia soar mais diferentes que em suas raízes. E em 2006 tivemos também em SP "Vertigo", no qual a banda mostrou ter solidificado seu talento para se apresentar em grandes arenas. Todos esses shows têm registros em DVD disponíveis no Brasil.

2. Tudo bem, minha geração não teve um Beatles.

Nem teria, pois os tempos já não estavam mais para isso. Mas quem foi adolescente nos anos 80, no vazio criado pelo fim do grupo de Liverpool, e não necessariamente se identificou nem com o glamour de David Bowie nem com o puro punk dos anos 70, viu no U2 algo porque se apaixonar. Um punk diluído, próximo ao pop, por vezes lírico, de letras políticas e reivindicando grandes causas, o que, naquele momento de vazio ideológico, soava bem. É certo que a banda, hoje, renovou seu público, mas a maioria certamente está na faixa 35-45 anos.

3. O novo disco é sensacional.

Apesar de não ter decolado no Brasil, "No Line on the Horizon", lançado em 2009, tem grandes melodias carregadas pela guitarra cada vez mais característica de The Edge. Merecem atenção "Unknown Caller", "Magnificent" e "Breathe". Dá pra ter uma ideia de como o álbum soa ao vivo em um DVD que saiu recentemente aqui e que registra um show do início da turnê, gravado no Rose Bowl, em Pasadena.

Por que fugir:

1. Haja paciência.

O roqueiro paulistano já se cansou da falta de estrutura da cidade e de seus espaços dedicados a shows. Ir a um concerto num estádio hoje significa necessariamente perder muitas horas de um dia, enfrentar trânsito, pagar R$ 5 ou mais numa cerveja, caos no transporte público e táxis cobrando os olhos da cara. Isso se não chover.

2. Vaidade de Bono.
Sim, se você, como o Mag, não aguenta a pose de heroi do politicamente correto, evite o Morumbi nesses dias. Como o show e o telão têm 360 graus, não há chance de escapar à sua performance, suas caras e bocas e seu batido discurso pela paz mundial entre as músicas.

3. Cansou.

Tem músicas que realmente já poderiam ter saído do repertório do U2 há anos. Não dá para entender como é que ainda não dispensaram as desgastadas "I Still Haven´t Found What I´m Looking For" e "With or Without You". Mas, pelos set lists da atual turnê, é mais do que provável que se repitam por aqui.

Para desempatar, é bom lembrar que quem vai abrir o show é nada menos que o Muse --há inclusive quem o considere melhor que a atração principal. A banda já esteve aqui em 2008 e mostrou seu vigor em apresentações ao vivo. Certamente terá menos tempo desta vez para mostrar seu som antes da entrada do U2, mas resta torcer para que seja o suficiente para executarem as belas "Time is Running Out", "Sing for Absolution" e "Hysteria".

FONTE:
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/sylviacolombo/854221-tres-razoes-para-ir-ao-u2-e-tres-para-fugir.shtml

sábado, 18 de dezembro de 2010

PROGRAMA EDIÇÃO Nº 359


1) THE DRUMS – LET’S GO SURFING
2) DARWIN DEEZ – CONSTELLATIONS
3) BIDÊ OU BALDE – ME DEIXA DESAFINAR
4) ARNALDO ANTUNES – A CASA É SUA
5) DISSONANTES – NO SEU LUGAR
6) FOO FIGHTERS – TIMES LIKE THESE

7) CAPTAIN BEEFHEART AND HIS MAGIC BAND – ZIG ZAG WANDERER
8) LED ZEPPELIN – ROCK AND ROLL
9) FORGOTTEN BOYS – SHE BRINGS MY LOVE BACK
10) IDENTIDADE – SENHORITA MOLLY
11) SABONETES – DESCONTROLADA
12) THE KILLERS – WHEN YOU’RE YOUNG

13) SUPERGRASS - GRACE
14) JET – SHE’S A GENIUS
15) LOS HERMANOS – CONDICIONAL
16) MATANZA – EU NÃO GOSTO DE NINGUÉM (AO VIVO)
17) NEVILTON – VITORIOSO ADORMECIDO
18) THE CRAMPS – HYPNO RAY SEX
19) RANCID – RUBY SOHO
20) NOFX – JAMAICA IS ALRIGHT

21) MAD SEASON – RIVER OF DECEIT
22) PEARL JAM – DO THE EVOLUTION
23) RAMONES – 7-11
24) PELEBRÓI NÃO SEI – CÉU SEM COR
25) ANACRÔNICA – EM MIM
26) GIOVANNI CARUSO E O ESCAMBAU – MÔNICA E SUAS ESCULTURAS
27) HOT RATS – LOVECATS
28) ROLLING STONES – SOMETHING HAPPENED TO ME YESTERDAY

Bono, Elton John e Mick Jagger falam sobre John Lennon em novo livro


Os aniversários de morte e nascimento de John Lennon fizeram com que uma avalanche de livros sobre o músico e sua banda fosse publicada. Com diferentes abordagens, todos reúnem informações e histórias sobre o grupo inglês que marcou o rock e a história da música para sempre.

Agora, a Rolling Stone publica "Memórias de John Lennon". Os textos foram editados pela viúva, Yoko Ono, e escritos por outros grandes nomes da música. Bono (U2), Iggy Pop, Chuck Berry, Elton John, Alicia Keys, entre outros, colaboraram com depoimentos, poemas, fotos, entrevistas e desenhos.

Outro não tão famosos também participam da edição. O tecladista Billy Preston e o documentarista Albert Maysles, que trabalharam com John na época dos Beatles, narram as experiências que viveram ao seu lado. Até Mick Jagger contribui contando um pouco sobre a amizade entre os dois vocalistas e brincando com a rivalidade entre as bandas.

Escritores renomados, como Tariq Ali e Norman Mailer, dão sua visão da importância do músico, especialmente o impacto político do ativismo de John e Yoko pela paz no final dos anos 60.

Complementam a edição fotos tiradas para a última participação de Lennon para a revista "Rolling Stone". Annie Leibovitz fotografou o casal em uma sessão que se tornou histórica.

FONTE:
http://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/846661-bono-elton-john-e-mick-jagger-falam-sobre-john-lennon-em-novo-livro.shtml

Morre o roqueiro "Captain Beefheart" aos 69 anos


O roqueiro americano Don Van Vliet, conhecido artisticamente como "Captain Beefheart", morreu nesta sexta-feira (17) aos 69 anos por complicações de esclerose múltipla, informou a revista "Entertainment Weekly".

A publicação citou como fonte um representante da galeria Michael Werner, de Nova York, que abrigou distintas exposições de suas pinturas.

Van Vliet morreu nesta manhã em um hospital do norte da Califórnia, após permanecer vários anos preso em uma cadeira de rodas devido à doença.

"Don Van Vliet foi uma figura complexa e influente nas artes visuais e interpretativas", disse a galeria em comunicado.

"Talvez seja mais conhecido como o incomparável 'Captain Beefheart', que, junto ao Magic Band fez sucesso na década de 1960 com um estilo único, mistura de 'blues' e 'rock and roll' experimental", acrescentou.

Segundo a entidade se trata de "um dos artistas mais originais" na história da música, que após duas décadas como compositor e artista decidiu se retirar para se dedicar totalmente ao mundo da pintura.

"Como sua música, suas exuberantes pinturas são produto de uma visão única", concluiu.

Seu disco "Trout Mask Replica" se situa no posto 58 dentro da lista dos 500 melhores discos de todos os tempos, feita pela revista especializada "Rolling Stone".

FONTE:
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/847737-morre-o-roqueiro-captain-beefheart-aos-69-anos.shtml

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

ENTREVISTA: Lobão


Por Gustavo Ranieri

Repleto de histórias peculiares, sucesso e mais de uma centena de processos, o cantor e compositor lança sua autobiografia. E que ninguém duvide. Lobão não conhece a expressão “pé no freio”. “Não parei de acelerar até agora. E nem pretendo”, dispara. Também não hesita em deixar claro que continua o mesmo: é egocêntrico, ácido, provocador, mas também sensível e tímido. Acima de qualquer coisa, leal a boa parte dos ideais. Inclusive os que cultiva desde quando ainda era o adolescente carioca João Luíz Woerdenbag Filho.

A diferença é que agora, com 53 anos recém-completados, 132 processos na bagagem, algumas prisões por envolvimento com drogas e milhares de discos vendidos, o cantor resolveu, como se diz no jargão popular, fechar a conta e passar a régua do que chama de “primeira etapa da vida”. “Tenho plena consciência de que a parte relevante do meu trabalho ainda não começou a ser escrita”, diz convicto.

É por isso que surge tão certeiro em 50 anos a mil, a autobiografia escrita em parceria com o jornalista Claudio Tognolli, que acaba de chegar ao mercado. São 873 páginas para revelar o perfil do homem que, sem medo algum, largou a casa dos pais, aos 17 anos, para se tornar músico.

Trajetória que soma ao longo de 36 anos a passagem como baterista da banda Vímana, ao lado de Lulu Santos e Ritchie, a criação da Blitz com Evandro Mesquita, embora, por uma série de divergências, tenha abandonado o posto antes do sucesso, e a carreira solo que totaliza 14 álbuns – o último, Acústico MTV, foi lançado em 2007.

Lobão é tudo o que os holofotes evidenciam. E é também a figura que se considera metódica – basta ver que acorda às 5h30 todos os dias – e insuportavelmente bem-humorada. A mesma que nesta entrevista fala sobre o lançamento da publicação, música, televisão e maturidade.

Em que momento nasceu a vontade de escrever a biografia 50 anos a mil?
Foi quando saí do Rio e vim morar em São Paulo, em 2008. Senti naquele momento que era o maior rito de passagem que já havia atravessado.

Isso em que sentido?
Aqui é uma cidade que o impulsiona pelo espírito empreendedor. Fora que gosto de me reunir com meus amigos e vim para cá justamente para poder ter realmente essa vida “afetiva”. Sair para comer juntos, tomar umas, fazer um som... lá no Rio, isso era impossível.

Mas, desde o início, a ideia era ser uma autobiografia ou esse foi o pedido da editora?
Recebi, primeiramente, convite de outra editora para fazer o que eu quisesse. Pensei em livro de crônicas, de poesias, um romance. Mas depois recebi outro convite. Desta vez, da Nova Fronteira, que também deu carta branca. No primeiro momento, a ideia foi escrever sobre o meu case na prisão e fazer algo tipo “Vida bandida, o livro”. Mas foi o Claudio Tognolli que me sugeriu escrever a minha biografa inteira.

50 anos a mil é um título muito sugestivo. É assim que você sente sua vida?
Claro. Não tirei o pé do acelerador até agora, nem pretendo tirar. E essa velocidade é em virtude da minha intensa vida interior e o que proponho a mim mesmo vivenciar. O resultado disso são aventuras das mais variadas e intensas.

Uma Vida louca vida, como você sugere na música...
Bem, sei que tenho uma história e que sou uma pessoa peculiar. Mas acho que se trata de uma trajetória de cura e crescimento. Agora, antes de qualquer coisa, me considero tímido, sedentário e faço tudo para produzir uma densa cortina de fumaça para impedir que descubram quem realmente sou. Até porque devo ser daqueles caras que se mostram exteriormente exatamente o contrário daquilo que são. E isso não deixa de requerer certa habilidade artística. Aliás, todo cara que mexe com arte tem uma performance meio alegórica na vida.

Uma das críticas recorrentes no caso de autobiografias é o fato de que muitos autores omitem fatos de sua própria história. Podemos dizer que você é 100% fiel ao que está em seu livro ou escondeu alguns detalhes?
Vejo a coisa por outro viés. Produzi um belo livro, contei uma grande história, mas sei perfeitamente que se trata de algo absolutamente arbitrário. E isso não me importa se a história é bem escrita. E acredito ser esse o caso. Até porque acho impossível exigir de você escrever uma autobiografia sem impor suas próprias edições.

E como foi que pintou a parceria com o jornalista Claudio Tognolli?
Por meio de uma conversa com meu amigo Marcelo Tas. Contei para ele sobre o livro que tinha para escrever e ele me sugeriu o Tognolli, que, aliás, já conhecia de outras jornadas. Acabamos esse projeto, que levou um ano e meio, já grandes amigos.

Houve preocupação de seguir uma ordem cronológica na biografa ou os fatos aparecem de acordo com o que você considera mais importante?
Eu não tinha a menor ideia de qual seria a ordem. No fim, saiu um formato linear de narrativa. Digo que acabei fazendo uma psicografa de mim mesmo.

E essa psicografa foi dolorosa em algum momento?
Rever sua história por meio de seu próprio punho é, no mínimo, um psicodrama. O que mais me surpreendeu foi saber como eu mesmo me tratei nesse processo. Depois, escrever minha história se tornou algo delicioso, percebi que tenho uma história riquíssima. E posso dizer que acabei o livro mais amoroso com o mundo.

Você acabou de completar 53 anos. Quem é o Lobão de 30 anos atrás e o de agora?
Sou aquele que veio salvar o eu menino, o garoto que gritava por socorro por mim mesmo olhando o homem crescido lá no futuro (que é agora). Escrever esse livro foi entrar na máquina do tempo e resgatar aquele que tanto orava por mim: eu mesmo lá atrás.

E o que esse “garoto” já pressentia do seu futuro que o fazia gritar por socorro?
Me via como uma pessoa que não conseguiria sobreviver àquele tipo de educação que me impunham. Era um grito de desespero, de solidão tamanha que só devo ter achado uma versão minha no futuro, que, por acaso, se dispusesse a me ajudar. Tinha certeza de que não havia outra opção. Mas parece que acertei.

Mas você tem consciência do que mudou e do que ficou igual em vocês ao longo desses anos?
Sei lá. Desde que me entendo por gente, não consigo fazer uma distinção clara. Mas posso dizer que antes era mais desprotegido. No sentido de viver em um país hostil ao que produzo. Só percebi haver realmente uma mudança mais relevante nesse quadro quando, como já disse, cheguei de vez a São Paulo.

Aliás, você acredita em maturidade? Considera-se um homem maduro?
Acredito que sou um ser obsessivo e apaixonado pelo que faz. Hoje, me sinto muito melhor do que sempre fui, graças a essa feliz característica. Meu vigor está intacto, minha capacidade se desenvolveu e continua em pleno desenvolvimento.

Também não se incomoda com a idade nem com o passar do tempo?
Acho que estou melhor do que nunca. E tenho plena consciência de que a parte relevante do meu trabalho ainda não começou a ser escrita. Vim para sacudir os alicerces e nem comecei a festa. Pode crer!

O que seria essa nova etapa de relevância na sua vida?
Já existe essa direção ou você está em processo de descoberta? Bom. Isso é para mais tarde. Agora, estou mesmo em ritmo de espera para uma série de lançamentos importantes.

Para a geração dos anos 1970 e 1980, você é um dos mais renomados artistas do país. Mas e para a geração atual: sua imagem não está na cabeça deles associada mais à televisão, como apresentador da MTV?
Não sei se isso é verdade. Tem de perceber que já estou no cenário de música independente há vários anos e meu público é de gente muito jovem. Mesmo porque não permito adulto contemporâneo, tipo nostálgico, se criar na minha área. Isso é público lixo, meu negócio é outro.

Afinal, a história de ser apresentador começou como uma brincadeira ou existia uma ideia planejada de se consolidar na TV?
Ser apresentador é uma linda brincadeira. E me reinvento sempre que tentam me exterminar. Aliás, isso fica bem claro agora no livro.

Você foi um dos pioneiros a lançar um álbum de modo independente, distribuído para todo o país em bancas de jornal. O que precisa mudar ainda na indústria fonográfica?
As rádios têm de parar com essa malandragem do jabá e de impor as mixagens para as gravadoras. Porque, nessas, eles sempre eliminam as guitarras. Enquanto não houver participação efetiva das rádios em tocar bandas novas, vamos ficar nas mãos desses oligofrênicos produzindo tatibitate teen.

E a pirataria, que vira e mexe volta à tona nas discussões? É possível combatê-la?
Olha, ergueria as mãos para o céu se a pirataria tivesse essa importância na merda em que nos encontramos. O buraco é mais embaixo. Temos de mudar a maneira de pensar das gravadoras, substituir a grande maioria dos executivos, que são meros diletantes, e chamar as rádios na chincha. O resto é puro detalhe.

Como você observa a crítica de que a música brasileira teria empobrecido em criatividade nas últimas décadas?
A música, assim como os políticos eleitos, é de nossa exclusiva responsabilidade. Não adianta reclamar dos outros. Somos essa coisa lastimável, enquanto cultura, por nossa inteira obra e graça. Tipo do caso que não rola uma inter-relação com o outro.

O que você está ouvindo nos últimos tempos?
Principalmente The Wombats, The Kills, The Dead Weather, Them Crooked Vultures e Radiohead.

E lendo?
Nada. Estou em pleno recesso intelectual

Você já causou muito alvoroço ao detonar em entrevista, por exemplo, Chico Buarque, Tom Jobim e João Gilberto. Você se arrepende de alguma dessas declarações?
Não. Nada do que falo é gratuito. Só com o João fui um tanto grosso e peço perdão a ele no livro.

Mas falar tudo o que tem vontade gerou muitos problemas na justiça e inimizades, não?
Já fui muito caçado. Foram 132 processos em todo o Brasil. Agora, não tenho o menor interesse em saber se essas atitudes me deram ou não inimizades. Elas, antes de qualquer coisa, sempre foram muito precisas. Nada pessoal.

E dessa centena de processos, quantos você ganhou ou perdeu?
Todos foram prescritos, porque eram absolutamente absurdos. No livro, o Tognolli elucida tudo com documentos, sentenças, entrevistas. Mas adianto que é uma caçada insana. Vendo hoje, dá até vontade de rir. Eu era tratado como um criminoso, um mal social em todo o território nacional.

Por tudo isso, se formou ao seu redor o estereótipo de “porra-louca”. Incomoda esse rótulo?
O que digo é que minha história sempre prevalecerá. Nunca tive a menor dúvida quanto a isso.

Mas como você lida com a exposição na mídia? Você é conhecido por ter um contato um tanto conturbado com a imprensa...
Não suporto me ver nas manchetes, seja com os altos ou os baixos da minha carreira. Há uns dez anos que nunca leio mais nada a meu respeito. Só me manifesto quando rola algum exagero. Sou tímido, uma alma delicada. Tenho horror à exposição pública e só o faço por minha atividade ser desafortunadamente pública.

Aliás, como é o Lobão fora dessa exposição pública? Você gosta de fazer coisas comuns, como ir ao supermercado ou ao shopping?
Sim. Sou uma pessoa extremamente corriqueira. Quase até um pedestre.

E o Lobão marido [ele é casado há 20 anos com Regina Lopes, sua empresária]. É do tipo carinhoso, acredita no “até que a morte nos separe”?
Bom, espero que sim. Sempre quis viver com minha amada até além do futuro. E assim será.

Por falar em além do futuro, você é espiritualista? Segue alguma religião?
Não, mas acho muito pitoresco. Desde criança, tenho fascinação por mártires, crucificações, mas, assim como Cioran [escritor e filósofo romeno do século 20], acho que a religião é uma forma de obter o enlevo da alma através do mal-estar. É como assistir a um show de MPB tradicional. Você sai se achando mais inteligente, a despeito das duas horas de merda que você gastou ouvindo aquela porcaria culturalista.

Mas e em Deus, você acredita?
Acho justo que exista uma entidade superior, muito embora ela nunca nos tenha brindado com sua real presença. Acho deus na sociedade uma coisa retrógada, sombria e, por que não, pusilânime. Enquanto o diabo... bem, o diabo é só deus de folga, né? Tá tudo dominado.

FONTE:
http://www.revistadacultura.com.br:8090/revista/rc41/index2.asp?page=entrevista